sábado, 28 de novembro de 2015

Dois

Não tenho nada contra a independência feminina, sou fruto dessa geração e tenho muito orgulho. Queria apenas entender, em que momento virou defeito querer ter alguém que nos complete.
Toda essa conversa de autoconhecimento, de ser completa quando se está só, de realmente conseguir ver a vida somente – e tão somente – pelo prisma da solidão, do espaço para reflexão, da necessidade de ser um ser ímpar...
Mais um defeito para a minha coleção.
Ou não.
Sei como eu sou quando estou só, me conheço bem o suficiente para prever as minhas atitudes, o que eu vou buscar, quanto tempo vai demorar até eu parar de achar a minha companhia tão interessante assim. A previsibilidade... será isso?
O que realmente sei é que sou muito melhor quando estou completa, quando tenho com quem dividir meus momentos, quando a minha vida não depende somente das minhas atitudes. É muito mais gratificante o inesperado, o frio na barriga, as descobertas, as afinidades, a intimidade que nasce, aquela quase telepatia que se desenvolve.
Não quero as cartas marcadas da minha companhia, a segurança de ser dona de todas as decisões. Que me desculpem as unitárias, mas nasci para ser par.

Decepção dói? Sim. Mas solidão dói mais.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Coração

Era pedra.
Em algum momento me tornei fortaleza, torre alta, coração protegido, somente cabeça.
Vida tranquila, estrutura forte, sem me abalar com eventuais ventanias.
Mas a natureza é impiedosa, a pedra trabalha, a falha aparece, a brecha aumenta. Depois que o caminho começa a ser aberto, a estrutura enfraquece, não há viga que sustente.
E a torre rui.
E a carapaça se vai.
A cabeça não mais comanda, só observa: peito aberto, coração na linha de frente, mandos e desmandos, quereres e desquereres, tudo e nada. Sem sentido, sem lógica, guiado pelo quê o faz bater mais rápido e mais forte.
Mas a vida é impiedosa, bate, arrasta, e o coração desprotegido sangra.
E o coração é mendigo, se cura com pouco, bate forte por quase nada.
Coração general, abrindo caminho.
E a cabeça não mais comanda, olhos vendados.
Sou coração.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Um

Romance de filme.
Borboletas no estômago, surdez, levitação.
Um simples toque e bum!, todos os clichês de "livros mulherzinha" ali.
O melhor e o pior, ser escravo do que te faz viver, coração batendo em outro peito.
Só ser completo na simbiose, conexão, e em um dado momento não encontrar ar suficiente em lugar nenhum.
Voar então para longe, e só conseguir respirar dentro de um beijo, o mais junto e mais misturado possível.
Explodir em um milhão de fragmentos, depois voltar para esse mundo e ser somente um.